A blog about Software Engineering and other stuff not related to programming
O principal motivo de ter escolhido a profissão dentro da área de desenvolvimento de software foi a baixa barreira de entrada: eram necessários apenas um computador, acesso à internet e muito tempo livre para estudar e colocar em prática desenvolvendo projetos pessoais até chamar a atenção das pessoas recrutadoras, eventualmente conseguindo uma vaga de emprego na área.
Comparando com outras profissões com uma maior barreira de entrada como a biomedicina, por exemplo, é necessário acesso a um laboratório e a equipamentos de preços proibitivos. Observei na tecnologia um grande potencial que exigia algo que não é barato, mas eu tinha de sobra: tempo para me dedicar a estudar e validar o que aprendia, na prática.
Até pouco tempo atrás, apenas o esforço e experiência de uma ou mais pessoas eram necessários para produzir um produto de software com qualidade semelhante ou até melhor que os produtos gerados por grandes empresas, sem a barreira de entrada financeira de um investimento inicial. Enxerguei a profissão perfeita para me proporcionar possibilidade de começar do zero quantas vezes fosse necessário, afinal só precisava de tempo livre e força de vontade para ser capaz de gerar valor recomeçando o ciclo de chamar a atenção de recrutadores quantas vezes fosse preciso.
Mas o cenário mudou, recentemente com o novo padrão que está se estabelecendo na área de desenvolvimento de software no qual o uso de LLMs (Large Language Models) capazes de escrever código de qualidade a partir de instruções não mais em uma linguagem específica para programação, mas sim na mesma linguagem que usamos para comunicação entre humanos. A barreira de entrada é imposta quando entendemos que as LLMs estão cada vez mais superando a capacidade humana de escrever código de qualidade. Isso eleva o padrão do mercado, e agora o esforço necessário para produzir um código com mesmo nível de qualidade e com a mesma velocidade que as empresas grandes conseguem, não é mais possível apenas com a sua força de vontade, tempo livre e um computador com acesso à internet. Agora é necessário acesso a uma boa LLM. Apesar de hoje já conseguirmos rodar LLMs de forma local, nada se compara à performance obtida pelos modelos fechados e comercializados, além da infraestrutura necessária para rodar uma LLM localmente.
Não me oponho ao uso de LLMs no desenvolvimento de software, já as utilizo no meu dia a dia de forma produtiva. Não me importo em reduzir o contato direto com o código, foi a porta de entrada no início da minha carreira, hoje isso assume um papel secundário e o foco se torna o pensamento estratégico aplicado à definição da arquitetura dos sistemas mantendo a qualidade e a capacidade de extensão para atender a novos casos de uso.
Mas proponho a reflexão para um plano B no caso em que as ferramentas para geração de código passem a ter um acesso mais restritivo favorecendo apenas quem possui maior poder aquisitivo, provocando uma financeirização da produtividade.
Published: 2026-03-15
Tagged: Reflexão
Na minha busca por expandir o meu repertório de experiências, aproveitei a oportunidade de assistir uma apresentação de um concerto de música experimental num estúdio de gravação.
De primeira, o que mais me impressionou ao entrar no estúdio foi o silêncio absoluto proporcionado pelo isolamento acústico do ambiente, um espaço completamente isolado do barulho e do ruído externo.
Experimentar o estúdio inundado por tal intenso silêncio me abriu a mente para experimentar a música a partir de uma nova perspetiva.
A perspectiva antiga consistia em experimentar a música com o foco nas ondas sonoras produzidas pelos instrumentos. A matéria-prima são as ondas sonoras, a música é o que ocupa o espaço antes dominado pelo silêncio ou por qualquer outro barulho do qual ela chega para tomar o lugar.
A nova perspectiva coloca o silêncio como matéria-prima, as ondas sonoras cortam o silêncio e o faz assumir diversas formas. O objetivo da música não é ocupar completamente o espaço do silêncio, deve existir um equilíbrio entre os dois, um equilíbrio flexível com a possibilidade de oscilar entre a dominância de um ou outro.
O músico assume o papel de escultor, o silêncio é o bloco de mármore bruto pronto para ser desbastado, as ondas sonoras são o seu martelo e a sua talhadeira.
Se o escultor desbasta toda a pedra, não resta o que ser observado, não temos uma escultura observável.
Usando outra analogia, um chefe enquanto prepara um prato, usa a quantidade precisa de condimentos de modo que não ofusque completamente o componente principal do prato. No paladar o tempero realça o sabor, mas não deve se tornar o foco e a única coisa a ser sentida.
A beleza do trabalho artístico produzido reside em como o músico guia a experiência de percepção do silêncio.
Published: 2026-02-19
Tagged: Reflexão
Esse é o segundo texto que escrevo sobre coisas incomuns que me proporcionam um certo nível de conforto e satisfação. Hoje é a vez de escrever sobre o desgaste de canetas esferográficas.
Primeiramente vamos deixar claro o que são consequências de primeira, segunda e terceira ordem. As consequências de primeira ordem são os resultados diretos e imediatos de uma decisão tomada. Já as consequências de segunda e terceira ordem são os efeitos de longo prazo resultantes dessa mesma decisão tomada.
Observar uma caneta completamente gasta, me faz refletir no esforço dedicado para que fosse usada até a última gota de tinta. As consequências de primeira ordem decorrentes do uso da caneta são as mais evidentes, a redução do nível de tinta e as marcas de uso visíveis no seu corpo. Já as consequências de segunda e terceira ordem requerem uma reflexão mais profunda, pois dependem do contexto em que foi utilizada.
O desgaste da caneta que foi de um estudante é composto por horas de estudo e foco direcionadas ao processo de aprendizagem. A caneta gasta no final do processo é uma espécie de troféu, foi preciso pagar um preço através do esforço para fazer a caneta chegar ao estado final de desgaste. As consequências de segunda e terceira ordem são a assimilação do conteúdo estudado, a boa nota obtida nas avaliações e o projeto colocado no papel e que hoje está em execução produzindo frutos.
A imagem da caneta gasta reflete o tempo investido no seu uso, investimento esse que no longo prazo rende dividendos. Apenas o dono da caneta consegue olhar para a caneta e refletir sobre as consequências de segunda e terceira ordem, para um observador externo é apenas uma caneta antiga que precisa ser substituída por uma nova.
Published: 2026-02-07
Tagged: Reflexão